Associação Cultural Panorama

Texto dos curadores do Panorama Festival, Eduardo Bonito e Náyse Lopez:

No Brasil, um projeto artístico fazer 16 anos é um feito e tanto. Aqui a vida pública, feita de mandatos e não de projetos, reinventa regras, muda valores e redefine prioridades de quatro em quatro anos. Analisamos o projeto a cada passo que damos, repensando o desenho do Panorama e de suas ramificações. A cada edição, buscamos novas maneiras de tornar o festival, e a dança, parte integrante da sociedade em que vivemos. E, sobretudo, avaliamos nossa coerência com as posições políticas que sempre fizeram do Panorama um espaço de desconforto, de pergunta, de dúvida e de constante desconfiança diante das formas estabelecidas de o indivíduo se relacionar com a arte, a cidade e o meio social.

No Brasil, fazer 16 anos é, na verdade, um feito para qualquer um. Os jovens entre 15 e 20 anos representam a maioria das vítimas dos 50 mil homicídios dolosos registrados anualmente no país e, freqüentemente, são seus autores. Com uma das maiores taxas de mortes violentas do mundo, nosso país apresenta regiões com mais de cem homicídios por cem mil jovens entre 15 e 24 anos, caso dos Estados do Rio de Janeiro, Pernambuco e Espírito Santo. Este é o cenário em que mais uma vez propomos reunir artistas do Brasil e do mundo que se dedicam a pensar as artes do corpo. Nunca temático, jamais uníssono, o Panorama se arrisca sempre ao tecer uma teia de obras cênicas cujo fio condutor é o corpo pensado em suas implicações políticas, estéticas e sociais.

Desde que assumimos a curadoria e a direção do festival, decidimos que o Panorama não podia ser uma vitrine de artistas, um mercado de espetáculos. Queríamos manter viva a idéia da bailarina e coreógrafa Lia Rodrigues de que o Panorama é, principalmente, um espaço de encontros. De conhecer e de se dar a conhecer. Nesse sentido, oferecemos três grandes presentes nesta festa de 16 anos.

O primeiro é a aproximação com nossos vizinhos. Desde nossa entrada na direção do festival, desenhamos uma estratégia de longo prazo para essa integração. E agora temos a visita de 30 profissionais vindos de diversos países do continente para participar do Encontro da Rede Sul-Americana de Dança e assistir aos espetáculos de nossos artistas. Esperamos que este seja um passo importante para uma maior interação dessa arte na América Latina.

O segundo é nos darmos conta de que, somados os projetos em que o Panorama investiu nos últimos anos, chegamos à marca de 18 obras realizadas em projetos colaborativos. Na programação deste ano, o público vai ver três. Saídos do projeto Encontros 2005/2006 – em parceria com nosso mais ativo e recorrente parceiro, o projeto Alkantara, de Lisboa – Karima meets Lisboa meets Miguel meets Cairo e Dueto são dois resultados diversos que dizem das possibilidades e dos riscos da colaboração com o outro. Movimento #2, da carioca Andrea Maciel, é um dos nove gerados pelo coLABoratorio, projeto inédito com 20 artistas da Europa e da América do sul, realizado pelo Panorama em 2006 e 2007. Os outros gerados em intercâmbios viajam sem parar pelo mundo, provando que abrir-se para conhecer o outro é a chave para o crescimento artístico.

O terceiro presente é conseguir, graças à contínua parceria com o Sesc e, agora, com a Secretaria Estadual de Cultura e a Funarj, levar o Panorama a mais e mais espaços do Rio de Janeiro. Além da já esperada noite a preços populares no Theatro Municipal, o Panorama se espalha pelo Centro, Zona Sul, Zona Norte, Zona Oeste e Baixada Fluminense, com uma agenda variada e que não facilita o que não deve. Que entende que o consumidor de cultura de qualidade não tem cep nem faixa salarial e que o dever de um projeto financiado com verbas públicas, ainda que via leis de incentivo, é praticar o acesso democrático. Não como contrapartida social, mas como essência mesma da sua realização.

Um festival assim, nascido da iniciativa de uma artista e feito para uma platéia ampla, enfrenta muitos desafios. Mas a prova diária da necessidade de um projeto como o Panorama vem do público, que continua crescendo, e dos artistas, que seguem confiando na possibilidade real de se gerar projetos com continuidade.

Parte do que para nós significa essa continuidade fica visível no Circuito Brasileiro dos Festivais Internacionais de Dança, iniciado pelo Panorama em 2005 e que hoje se articula com o FID, em Belo Horizonte, o Festival de Dança do Recife e a Bienal do Ceará. Em 2007, a Petrobras passou a ser apresentadora do circuito e seu apoio vem se juntar ao da Funarte, que já o reconhece, desde 2006, como ação estratégica para a cultura nacional e o desenvolvimento da dança de investigação.

No front carioca, a Oi e o Oi Futuro reforçam sua participação em tudo o que renova a arte da cidade. E o Sesc Rio, através do Espaço Sesc, se confirma como a verdadeira casa da dança contemporânea carioca, seja por sua programação continuada, seja pelo investimento em produção.

O Panorama, como festival, se insere noutro “panorama”, maior – nem por isso mais arejado. Numa cidade onde a cultura viveu um ano como enfeite do esporte, a esfera municipal está novamente ausente da dança da cidade e do Panorama. Mas nós também só pensamos em atletismo: nossa corrida é sempre de obstáculos, a prova é de resistência e a linha de chegada a gente reinventa todo ano.

EndereçoRua da Lapa, 213

Lapa - Rio de Janeiro

CEP 20021-180

Entidade mantenedoraPrivado

HorárioDe segunda a sexta de 10 h às 18 h.

Serviços OferecidosAssessoria técnica / administrativa / jurídica na realização de eventos, Promoção e captação de eventos, Planejamento de eventos

 

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